Desde que me lancei ao meu exílio voluntário na província de Santos, teve início um sem fim de reflexões acerca da minha vida pregressa. Tédio? Crise da meia idade? Proximidade da menopausa? Não importa. O certo é que bastou me afastar uns poucos quilômetros da vila de São Paulo de Piratininga, para que me desse conta de que não sou capaz de viver bem em outras cercanias.
Antes que se completassem dois meses de minha estadia aqui, com sofrimentos de toda ordem - que vão desde viver em um lugar onde as pessoas não conseguem tirar um espresso decente, pagar caro para almoçar em lugares que servem os piores repastos em pratos transparentes de vidro riscado, aturar um calor pior que o do noroeste paulista e outras coisas impublicáveis - a tragédia do corona bicho se abateu sobre essas paragens.
Com outros dois meses e qualquer coisa de quarentena (começada efetivamente aos vinte e três dias de março), não consigo parar de pensar (entre outras coisas) na São Paulo que irei encontrar quando de meu retorno - que deverá ocorrer depois de um ano aqui, ou na pior das hipóteses, quando encerrar meu contrato de aluguel.
Tenho falado muito sobre isso com um grande amigo de longa data (quase trinta anos de amizade), nas intermináveis chamadas de vídeo que fazemos ao final da noite. Quais os lugares de afeto encontraremos quando tudo isso passar? Na cidade onde a força da grana ergue e destrói coisas belas, a permanência dos negócios sempre foi algo bastante volátil por si só.
Agora, temos um cenário em que muita coisa já fechou antes mesmo de iniciar a quarentena - alguns lugares nem vão deixar saudade, mas sempre vão significar pessoas sem renda e famílias desamparadas, o que já é suficientemente trágico. Outros estabelecimentos, seguem se adaptando a duras penas ao delivery e vendas on line. Mesmo assim, muitos sucumbem no meio do caminho.
Hoje contabilizei mais um lugar que não vou encontrar da próxima vez que estiver em São Paulo. Fiquei verdadeiramente triste. Lembrei de tudo que vivi na cidade, antes mesmo de ir morar lá. Carrego comigo toda uma cartografia afetiva, de lugares que muitas vezes só continuam a existir de fato, em minha memória.
Imagem: Instagram da autora.

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