Na minha infância, entre as décadas de 70/80, minha maior felicidade era quando saíamos de Angra dos Reis (onde cresci até os catorze anos) e íamos para São Paulo, visitar meus avós maternos. Se meu pai fosse junto, íamos até o Rio de Janeiro e tomávamos avião. Não foi nas asas da Panair, mas nas da Varig e da Vasp, onde descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno.
Mas eu gostava mesmo, era de viajar de ônibus. Eu ficava absolutamente encantada, quando a gente chegava na rodoviária antiga, que ficava na Praça Júlio Prestes, na região da Luz. Ela era toda coberta por pastilhas coloridas transparentes e eu dava trabalho pra sair dali. Fiquei chateada quando soube que não existia mais.
Meus avós moravam na Vila Guilherme, meu tio com a esposa dele também. E lá eu passava meus dias, sendo terrivelmente mimada enquanto filha, sobrinha e neta única. A comida que eu mais gostava de comer era o frango ensopado da minha vó. Ela fazia com batata e punha colorau, que eu achava um negócio muito bonito também, aquele pozinho vermelho.
Meu vô gastava todo dinheiro que não tinha, comprando chocolates pra neta que vinha do Rio. Lembro da casa da vó Cida cheia de bolachas cream cracker e latas de torrada, que ela fazia todos os dias. Tanto meus avós como meu tio, moravam em dois cômodos, na parte baixa da Vila Guilherme. Nessa época, São Paulo ainda era a terra da garoa.
Posso afirmar que no sistema Pantone, eu era pelo menos uns cinco tons acima do que sou hoje. A cor se foi, restaram as incontáveis pintas. Muitas das quais tive que remover em consultório médico e mandar pra exames. Naquela época, a exposição ao sol era uma coisa meio selvagem. Não havia esse negócio de protetor solar e sim, bronzeador. Os mais abonados, conseguiam comprar rayito de sol, que vinha do Paraguai. Em casa, era Copertone mesmo.
Eu era uma garota dourada que vivia em uma das praias mais lindas do Brasil - as praias de Angra e de Paraty das décadas de 70/80, não existem mais. Não na forma de acesso que tinham antes. Hoje, a maioria está tomada por grandes empreendimentos hoteleiros, virou propriedade privada com construções quase dentro da água, cão de guarda, segurança, etc. E ainda tem os turistas.
Ter crescido num lugar assim, faz com que eu seja bastante blasé no que diz respeito ao meu interesse por praias. Talvez isso explique minha absoluta falta de curiosidade pelas praias de Santos, com seus sete canais de esgoto (tratado, mas segue sendo esgoto) e lixo das palafitas boiando no mar.
As boas lembranças da Vila Guilherme que trago, são dessa época. A impressão que eu tenho é a de que era um bairro predominantemente operário. Todo mundo trabalhava na Nadir Figueiredo, na fábrica de charutos (esqueci o nome), ou em alguma outra indústria. Não se ouvia essa estória de desemprego e mesmo sendo peões de fábrica, as pessoas levavam uma vida muito melhor que muita gente de classe média leva hoje.
Minha vó, meu tio e sua esposa, eram evangélicos. Não lembro de qual Igreja, mas era daquelas mais toscas mesmo. Meu avô era ateu, mas de vez em quando me levava de rolê em alguma igreja, onde gostávamos de bater palma e gritar. Eu e meu avô achávamos muito divertido e fazíamos isso, só pra poder estar perto das pessoas. Talvez o nome disso seja inocência. Talvez, espírito de porco mesmo.
Todo mundo que eu conhecia na Vila Guilherme, era crente. Eu tinha também a bisavó Emília e o bisavô Abrão, que moravam em uma sobradinho cor de açafrão e logicamente, eram evangélicos. A vó Emília tinha um pequinês bem velhinho e cego, que ficava sentado no pé da gente. Esse era um cachorro que eu acho que era moda naquela época. Pelo menos na Vila Guilherme.
A louça das casas do meu tio, dos meus avós e bisavós, era toda colorida. Não tinha esse negócio de banheiro branco asséptico, era azul marinho, verde e outros tons. Na cozinha, lembro de mesas de fórmica vermelhas. Não era essa semgraceza de linha branca de hoje, não.
Lembro que adorava andar a pé pelo bairro. Só tinha casas, nenhum prédio. Em quase todas, havia anões no jardim. Nas poucas residências católicas, havia a imagem de algum santo feito com azulejo, logo na entrada. Os carros também eram muito coloridos e meu tio tinha um fusca azul pavão.
Tinha os dias de feira e íamos eu, minha mãe e minha vó, comer pastel. Tinha um moço que visivelmente tinha problemas sérios, ou sequelas de alguma coisa, que sempre encontrávamos na feira. Todas as vezes que a gente ia pra São Paulo, lá estava ele. Ele surgia do nada na barraca do pastel e dava uma mordida em cada um de quem estivesse por ali. Depois ele desaparecia e seguíamos todos, como se nada tivesse acontecido.
Terminávamos de comer o pastel mordido por um estranho e nem ficávamos doentes por causa disso. Hoje, não consigo nem imaginar como até ontem, comíamos bolos onde as pessoas assopravam velas em cima. Aquele mundo, realmente não existe mais.
Mais tarde, eu viria a morar lá e o mínimo que posso dizer, é que não foi uma experiência memorável. Mas isso, fica para outro dia.
Imagem: Instagram da autora.

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