quarta-feira, 27 de maio de 2020

"Pa-pa-pa".

Volto à Vila Guilherme, por volta dos meus dezessete anos. Pra morar. De favor, na casa dos meus avós. Meu pai havia perdido seu emprego razoável em Angra e nunca mais conseguiria uma posição. O dinheiro que recebera, foi-se todo num período de uns três anos vivendo em uma pequena cidade do noroeste paulista, onde ele e minha mãe cresceram. Onde ele viveu até o fim de seus dias e ela vive até hoje.

Agora vivemos um pouco próximos ao shopping. Lá tinha um supermercado enorme, onde eu e minha mãe íamos, quando precisávamos fazer compras de itens básicos. Aproveitávamos pra procurar por coisas de graça pra comer. Degustações e algumas frutas pequenas, que devorávamos por lá. Tinha sempre um segurança atrás da gente.

Eu já tinha meus quase dois metros de altura, mas pesava apenas cinquenta e oito quilos. Usava roupas de doação. As calças jeans do meu tio, que é bem baixinho, viravam bermudas. Vestia também os vestidos cafonas e pouco usados de uma prima da minha mãe de Osasco, que era uma senhora baixinha e gorda. Estava sempre coberta por toda sorte de tecidos, com medidas bem distantes das reais dimensões do meu corpo. Nunca reclamava por isso.

Comecei a estudar num colégio horrível, que parecia mais um cadeião. Quase todas as escolas
estaduais de São Paulo, tem esse aspecto. Ao menos quando eu era adolescente tinham. O colégio no qual estudei no interior, também parecia uma prisão. Embora não fosse tão perto, eu ia e voltava a pé pra escola da Vila Guiherme. Todos os alunos eram de classe média baixa e mesmo menores de idade, chegavam dirigindo. Quase sempre, um Escort ou uma moto. Bullying era algo constante, só que eu não sabia que tinha esse nome. Eu nunca tinha dinheiro nem pra comprar um salgado na hora do recreio e ao contrário da escola do interior, não tinha sopa de graça. Talvez em função do horário que eu estudava.

Certa vez, os idiotas da minha classe insistiram para que eu fosse assistir um filme ridículo no centro da cidade com eles. Eu não tinha dinheiro. Minha mãe deve ter estourado todos os cofrinhos, fez questão que eu fosse e me fez vestir minha melhor roupa - essa nem era doada. Chegando lá, acho que assisti Esqueceram de Mim, ou qualquer porcaria parecida e passei muita vergonha, com eles tacando pipoca em todo mundo e gritando no cinema. Pra mim, fora um imenso sacrifício, tanto em termos financeiros quanto emocionais.

No dia seguinte, quando eu estava chegando perto da sala de aula, consegui ouvir do corredor meus colegas falando de mim e caçoando das minhas roupas, do meu calçado, de tudo. Segurei o choro - arte que domino desde a tenra infância, quando meu pai foi encontrado caído num quarto de hotel, com aneurisma e quase morreu - entrei na sala como se nada tivesse acontecido e cumprimentei a todos. Tudo que eu queria era que aquele ano acabasse e eu nunca mais tivesse que olhar pra cara deles. Os professores também não colaboravam e alguns estavam sempre implicando comigo. Exceção da professora de História, que no fim do ano me deu uns presentes e algumas guloseimas, dizendo que eu era muito magrinha.

A diretora da escola, mulher esguia, ruiva e de olhos azuis, de vez em sempre entrava na nossa sala pra dizer que estava ali fazendo um favor em nos aturar, pois era casada com um economista. Insistia em ficar comparando a gente com o filho dela, que estudava no Bandeirantes. Acabei de lembrar, que ela também dava aulas de Matemática, além de ser diretora. Mais de uma vez, ela levou o gerente do Mac Donald's mais próximo pra conversar conosco e oferecer a maravilhosa oportunidade de trabalhar lá. Era esse o projeto de educação dela pra gente.

O ano finalmente acabou - assim como eu espero que esse 2020 termine e eu consiga sair a salvo, ainda que com sequelas - e pouco tempo depois, eu estava cursando História na USP. Minha mãe me inscreveu pro vestibular na PUC, porquê tinha certeza de que eu não passaria numa universidade pública. Eu tinha me inscrito na UNESP também e fiquei bem chateada com a atitude dela, tanto pelo descrédito como pela maratona de provas que eu ia ter que fazer de uma só vez. Passei nas três e cogitei ir pra UNESP, pra poder ter uma existência mais autônoma. Acabei ficando em São Paulo, mesmo.

Por um bom tempo, fiquei pra lá e pra cá, entre o CRUSP e a casa dos meus avós na Vila Guilherme. Agora, eu tinha duas camisetas - que não tinham sido de ninguém antes e eram do meu tamanho - e um tênis pra ir pra faculdade. Era uma camiseta da Mafalda e uma de um poema do Maiakóvski, que ganhei. Punha uma, tirava pra lavar, vestia a outra. O tênis, era um Nike de couro que meu tio me deu. Um dia, ele me pegou de carro e levou até uma loja de calçados para escolher um. Escolhi o tênis mais barato que tinha. Ele disse que era muito ruim e voltou com um lindo tênis branco.

Meu tio passava na sexta-feira por lá e soltava seus seis filhos - um mais mal criado que o outro - e só passava de volta pra recolher, na segunda-feira. Eu queria morrer e odiava aquelas crianças com toda intensidade da minha vida. Eu odiava os parentes e vizinhos malufistas. Acho que a Vila Guilherme inteira era malufista e meu peito era uma caixa de ódio.

Meu vô tinha aquele costume de pobre, de ficar mostrando a casa inteira pra todo mundo que chegasse. Ele não sabia ler direito, coitado. Ele vivia abrindo meu quarto - que era um cômodo apartado, no quintal da casa - pra mostrar pros parentes e vizinhos malufistas que chegavam. Só que na parede tinha um cartaz com letras garrafais: "O bom malufista é o malufista morto." Quando paro pra pensar na barbárie que estamos vivendo hoje, sinto até saudade dos malufistas.

Minha vó vivia humilhando todos nós. De vez em quando, ela ficava nervosa e ameaçava desmaiar ou coisa parecida. Eu esfregava álcool nela e ficava abanando com a tampa de uma caixa de sapato.

Meu pai quando conseguia fazer algum bico, me levava pra comer feijoada no bar das portuguesas da esquina. Uma vez, ele até me levou na noite anterior para assistir aos preparativos e fez profundas digressões sobre o assunto. Foi um momento precioso e sinto falta da companhia dele para feijoadas e algumas outras coisas.

As portuguesas da esquina eram três mulheres velhas e a mãe, chamava as filhas de "filita". De casa dava pra ouvir: "filita, cuidado pra atravessar a rua". A gente achava muito engraçado, aquela senhora tratando outras mulheres de idade avançada como se fossem crianças. Mas hoje, com quase cinquenta anos, é mais ou menos do mesmo jeito que a minha mãe me trata. Sim, somos motivo de riso também.

Tinha também o Zuada, que era um cara que vivia na rua e pelas madrugadas gritava: "pa-pa-pa" ou "amanhã é feriado". Sempre tivemos a impressão de que o Zuada desenvolveu algum stress pós traumático envolvendo alguma situação com tiros. O "pa-pa-pa" dele, claramente eram tiros e até sua feição mudava.

Na Vila Guilherme, sempre moramos em lugares com enchente. A tal da Vila Guilherme baixa. Uma vez, voltando da casa de uma amiga em São Bernardo, fiquei presa na rodoviária quase um dia inteiro, pois a água não baixava. Já passei por tanta enchente, que de vez em quando, penso que leptospirose é fanfic. Mas não sou negacionista de doença, não.

Chegou um dia, em que foi todo mundo de mudança pro interior. A tal da cidadezinha no noroeste paulista, de onde vieram. Meu tio me deixou no CRUSP, com uma caixa de papelão com uns poucos pertences. Minha vó me deu uma panela e falou que era pra eu poder fazer Miojo. Depois disso, eu voltaria a Vila Guilherme umas poucas vezes, pra comprar roupas plus size.

                                            Imagem: Instagram da autora.

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