Desde quando cheguei em São Paulo, eu andava muito. O dia todo. As coisas mudaram quando comecei a trabalhar. Foi um caminho de sedentarismo sem volta. Como trabalhava de dia e estudava à noite, a pressa e a sensação de tempo perdido sempre me acompanhavam. Passei a me deslocar de ônibus e metrô - comecei a ter algum dinheiro também - e bater perna foi se tornando algo cada vez mais raro. Pouco tempo mais tarde, compraria um carro. Desde que fiquei sem carro, passei a usar muito taxi. Aqui em Santos - no meu curto período de permanência, antes do confinamento - ando de ônibus nos dias úteis e a pé, aos fins de semana.
Tudo isso envolvia disponibilidade de tempo, um olhar curioso e falta de grana também. Antes de começar a trabalhar, cada centavo gasto fazia muita diferença. Tanto pra mim, quanto pra minha família. Eu ia a pé pra escola, pra biblioteca no bairro do Pari, aos depósitos de doce com meu vô. Com minha mãe e minha vó, andávamos longe pra ir em qualquer supermercado que tivesse alguma mísera oferta. Hoje, posso comprar o que eu precisar sem ter que ficar contando dinheiro ou procurando o lugar mais barato. Procuro fazer minhas escolhas em função da qualidade e comodidade. Não sinto saudade da dureza dos velhos tempos.
Eu tinha uns programas muito bizarros, que basicamente envolviam andar muito a pé. Eu saía da Vila Guilherme, atravessava uma ponte sobre a Marginal Tietê e estava no Pari. Lá chegando, eu percorria a Carlos de Campos inteira até sair na Igreja de Santo Antônio. De lá, eu pegava umas ruas que iam dar no Largo da Concórdia. Seguia pela Rua do Gasômetro, acho que pegava a Rangel Pestana e saía na Praça da Sé. E lá eu ficava plantada por horas, tomando um forguim - como dizia meu vô - e observando o movimento. Depois fazia todo o caminho de volta.
Quando eu estava mais abonada, eu me dava ao luxo de tomar um ônibus até a Praça da Sé. De lá, eu ia andando até a Brigadeiro Luís Antônio e a percorria toda, até chegar no Parque do Ibirapuera. Já no parque, não havia condições para comprar uma água, um sorvete, nada. Ainda assim, eu adorava. Na volta, ia até a Praça da Sé e tomava meu ônibus. Eu fazia qualquer negócio pra sair da Vila Guilherme.
Lembro também, de ter ido pra Paranapiacaba uma vez. Eu tinha unicamente o dinheiro do trem e do metrô. No metrô, um professor com uma excursão de escola, me incorporou ao grupo. Numa das trilhas, não lembro se debandei deles de propósito ou se me perdi. Sei que estava descendo sozinha, na neblina, numa trilha que não conhecia. Encontrei um grupo de orientais, que não falavam português entre eles. Eram duas senhoras e um senhor.
No começo, percebi que ficaram me estranhando. Mas, passados alguns instantes, me chamaram para juntar-me a eles. Andamos muito e por fim, chegamos numa espécie de boteco de beira de estrada. Não tinha quase nada lá, naquela época. Eles pararam pra comer umas coisinhas e tomar refrigerante e perceberam que eu não tinha dinheiro. Pagaram tudo pra mim e ainda o meu trem e meu metrô de volta. Sem que eu pedisse. Despedimo-nos na estação e voltei pra casa toda contente.
O centro sempre exerceu um magnetismo muito grande sobre mim. Quando comprei meu carro, pude aperfeiçoar meus hábitos estranhos que tinha, andando a pé. Eu gostava de ficar rodando pela Praça da Sé, Pátio do Colégio, Estação da Luz. Só que de madrugada. Tinha amiga minha que curtia, tinha quem surtava também, pois eu não costumava avisar onde iríamos. Muitas vezes, ia só mesmo.
Nunca me aconteceu nada nas minhas andanças pelo centro. Nem a pé aos fins de semana, nem de carro na madrugada. Saudades da sensação de liberdade que um carro dá e de poder fazer o que quiser, quando quiser, sem dar satisfação a ninguém. Nas atuais circunstâncias, eu já ficaria feliz em poder sair andando por aí sem medo da peste.
Imagem: Instagram da autora.
quinta-feira, 28 de maio de 2020
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