Se existia algo de bom em morar na Vila Guilherme, era ser vizinha do bairro do Pari. O Canindé, de Carolina de Jesus, também era logo ali, acho que bem nesse miolo entre os dois. Do último, pouco me recordo. Lembro de muitas vezes, batendo perna, avistar o estádio da Portuguesa. Mais nada.
Bastava uma caminhadinha, atravessar a Ponte da Vila Guilherme e já estávamos no Pari. Eu rodava o bairro todo, percorrendo os depósitos de doce com meu avô. Eu ajudava ele a carregar a compra que seria o nosso sustento. Caixas de balas de goma, amendoim doce e salgado, chocolate do Fofão (sim, isso existiu e era muito ruim), fardos de biscoitos de polvilho, embalagens diversas pra acondicionar os doces porcionados, tudo isso carregávamos a pé.
Meu vô era camelô e algumas poucas vezes, também fiz o mesmo serviço. Eu não trabalhei mais vezes vendendo doces e biscoitos na rua, porquê meu vô não aceitava. Mais de uma vez, ouvi de sua boca que eu "só" comia, cagava e estudava. Mas mesmo assim, ele não aceitava que eu ficasse na rua. Então, além de fazer a parte das embalagens, eu procurava ajudar no transporte das compras também. E na verdade, eu adorava percorrer os depósitos de doce do Pari com meu avô.
Nesse Recanto do Lumpesinato, que era nossa casa, nunca faltava barulho. Éramos cinco adultos, mais um monte de gente que frequentava a casa e todas as crianças do meu tio, muitas vezes por semana. As pessoas falavam muito alto, gritavam - até porquê, meu vô era surdo. Nas horas vagas, ele, meu pai, meu tio e outros parentes, estavam sempre aos berros na garagem - que ficava do lado do meu quarto, no quintal e era um misto de sala de refeições e estoque - jogando baralho. Sempre meu vô estava querendo mostrar meu quarto pra alguma visita e as crianças do meu tio, eram as mais mal criadas que já vi na vida.
Eu não conseguia estudar dentro de casa. Nem quando estava no colegial, nem quando estava me preparando pro vestibular, nem quando já estava na USP. Só alguém que conviveu num ambiente assim e outros como CRUSP - onde fiquei todo o tempo como hóspede e muitas vezes, hóspede irregular, ou seja: amontoada em qualquer canto - é capaz de entender o tanto que valorizo meu espaço e a possibilidade de estar só, no meu canto, com minhas coisas.
Até que numa dessas andanças, eu descobri a Biblioteca Municipal Adelpha Figueiredo, no bairro do Pari, numa pracinha logo depois da ponte. Não posso imaginar como esteja agora, mas na década de 90, era um oásis e eu queria morar lá. Bom atendimento, alguns bons livros expostos pra doação de vez em quando, cabines de estudo na parte de cima. Muitos livros da graduação do curso de História, que estavam sempre emprestados nas bibliotecas da FFLCH, eu conseguia por lá. Se me foi possível terminar meu segundo grau, estudar pro vestibular e mesmo levar minha graduação enquanto estudante pobre numa universidade para privilegiados, muito disso devo a este lugar.
Toda vez que eu me trancava numa cabine grande, que tinha umas quatro mesas, eu encontrava um sujeito mais velho que eu que também ia lá todos os dias. Ele era bem bonito, mas eu era muito focada e procurava nem olhar pra cara dele. Mas ao contrário, ele não tirava os olhos de mim - num misto de um jeito solícito, do cara mais velho que poderia me ajudar com meus estudos se eu desse abertura e um interesse mal disfarçado. Nunca dei a chance de uma palavra e passado um tempo, nunca mais vi.
Um belo dia, já aluna da USP, fui ao CEPEUSP pela primeira vez e fui fazer meu topless. Quando eu tiro a toalha e fico com meus lindos seios de mulherão escultural que um dia fui à mostra, a primeira pessoa que vejo foi ele. Acompanhado de uma mulher, talvez namorada. Pude perceber o atordoamento nos seus olhos. A bem da verdade, eu era a única que fazia topless, mas acho que isso nem era o caso. Acho que jamais ele poderia imaginar uma menina tão retraída como aquela da biblioteca, tão à vontade com os peitos de fora, como a que estava na frente dele. Infelizmente, nunca mais o vi.
Nessa casa tão cheia, de vez em quando aparecia um parente do interior que vinha visitar a gente e resolvia fazer um tour pelas lojas de comércio popular do Pari, Brás e Largo da Concórdia. Nessas ocasiões, eu funcionava como uma espécie de guia. Levávamos o dia inteiro nisso e no final, eu ganhava um dinheirinho - que devia ser o equivalente a um lanche num lugar barato - e ficava imensamente feliz.
Eu e minha mãe adorávamos a Igreja de Santo Antônio do Pari e suas festas. Sempre que sobrava algum trocado, era para lá que íamos. Saudades de bater perna com meu vô, da biblioteca e seu bofe misterioso e de ir às festas da igreja com minha mãe.
Imagem: Instagram da autora.

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